Pode-se dizer que Luis Eduardo Tavares é um patrimônio das corridas de rua no Brasil. Em 1994 formou em Educação Física e fundou a EC Tavares, viva até hoje. E põe viva nisso! Confira um pouquinho dessa história!

Luís Eduardo Tavares

“Todo 31 de dezembro eu tinha um ritual: ia até a Rua da Consolação com meus pais para ver os gigantes da corrida de São Silvestre. E sonhava vencê-la quando crescesse. Meus achavam graça do meu sonho. Até por que eu tinha problemas ortopédicos, usava bota, sentia muitas dores nos pés e por não praticar atividade física não tinha fôlego algum. Ainda assim a corrida me fascinava.

Fui crescendo e comecei a me interessar por fotografia, que parecida ser uma realidade muito mais próxima de mim. Fiz alguns cursos e aos 13 anos já fotografava batizados e casamentos. E o sonho de me tornar um atleta foi ficando mais distante, assim com muitos meninos desistem de ser bombeiros ou policiais.

Sempre fui muito tímido e em certo momento da minha vida, o psicólogo insistiu que eu fizesse alguma atividade física. Me matriculei no SESC, mas as aulas coletivas eram uma tortura. Eu chegava a sentir tonturas e enjoos de tanta timidez. O psicólogo, porém, me deu um ultimato: eu tinha duas semanas para me matricular em alguma atividade ou ele não me atenderia mais. Por sorte, abriu uma academia perto de casa e como eu era o primeiro aluno me sentiu mais à vontade.

E a vida vai sempre se harmonizando… Assim que comecei a gostar da academia, encontrei um amigo de infância que me fez um convite tentador: correr a São Silvestre! Isso mudaria minha vida.

Nossos treinos para a prova daria um livro. Não tínhamos experiência, mas precisávamos treinar. Então acordávamos às 5h da manhã e subíamos a Rua Peixoto Gomide correndo feito doidos. Nossos pais achavam que estávamos malucos. Meu amigo também achou e acabou desistindo, mas eu continuei treinando.

Dezembro chegou e decidi me inscrever na Corrida de Natal da Corpore para me ambientar com as corridas antes da São Silvestre. O professor da academia me deu algumas dicas, até a ficar junto ao pelotão de elite para ter mais chances na corrida. Treinei muito e fui para a prova achando que tinha chances de ganhar.

Até que veio a largada e saí correndo feito um louco para acompanhar os caras da elite. Com 200 metros eu já estava com a língua de fora e com 500 metros eu já estava andando…

Mil coisas passaram pela minha cabeça e por um momento tive a certeza de que aquilo não era para mim. Pensou em desistir da São Silvestre! Mas voltei a correr, os quilômetros foram passando e terminou meus primeiros 10 km em 52 minutos. Não desisti e terminei o ano com a medalha da prova mais famosa do Brasil nas mãos.

Depois de tanto sofrimento, pensei: “ufa, não vou ter que treinar mais. Já cumpri a missão!”. Mas duas semanas depois a saudade da endorfina tomou conta de mim e eu só pensava em voltar a correr. O esporte solitário era perfeito para alguém tímido como eu.

Na década de 80, tudo era muito diferente do que é hoje. Não havia cultura da corrida, não havia assessorias esportivas, o esporte muitas vezes era marginalizado e somente pessoas que tinham dinheiro conseguiam treinar. Atletas carentes treinavam sozinhos, sem orientação profissional e os demais precisavam pagar por um personal trainer, muito caro na época.

Mesmo sabendo de todas as dificuldades, nunca mais deixei de treinar e fui pegando cada vez mais gosto pela corrida. Fiz esforços para continuar pagando por um personal trainer. Por outro lado, eu via muitos atletas com grandes chances de ganhar corridas treinando sozinhos e de forma errada.

Junto com a paixão pela corrida veio a frustração com a fotografia, numa sequência de trabalhos que me causaram grande decepção. Foi aí que decidi fazer faculdade de Educação Física para me tornar um treinador. O objetivo era treinar aqueles atletas carentes, que se dedicavam muito e não podiam pagar por um treinador.

Em 1994, com o CREF nas mãos, fui para o Parque do Ibirapuera com um banquinho e uma prancheta em mãos. Durante três meses treinei apenas uma aluna, a Alda, que acreditou no meu trabalho e, com 79 anos, está comigo até hoje. Aos poucos foi atraindo alunos, que me viam ali na Praça do Sino e vinham me pedir informações. Minha mãe panfletava nas corridas.

Enquanto os demais treinadores cobravam por hora/aula um valor que não era acessível a todos eu decidi cobrar um valor que os mais carentes pudessem pagar. Assim fechei o primeiro ano com 18 alunos, quase todos atletas carentes, que foram se destacando e pegando pódio em corridas. E a EC Tavares foi fazendo seu nome, embora os atletas com maior poder aquisitivo, por preconceito, se matriculassem em outras assessorias.

Mas os bons resultados dos atletas e a exposição na mídia derrubaram preconceitos, atraindo atletas de todas as classes sociais. Aquele menino tímido hoje se orgulha de ser um profissional que já levou muitos atletas ao pódio e que ajudou muitas pessoas a mudarem seu estilo de vida. E já levei muita gente para realizar seus sonhos pelo mundo. Aquele menino tímido que passava mal quando ficava no meio de outras pessoas criou uma grande família que se orgulha de carregar o sobrenome Tavares.

Atualmente, precisamos estar sempre inovando no atendimento e nos métodos de treinamento. Mas o nosso grande diferencial são as viagens que organizamos. Além de profissional de Educação Física, sou guia de turismo. Isso facilita na hora de levar os alunos para correr provas dentro e fora do Brasil. Hoje levamos até alunos de outras assessorias em nossos grupos.

Sofremos com esta pandemia, especialmente em relação às viagens. Precisei cancelar mais de 17 roteiros. Já os treinos prosseguiram com aulas online e vídeos de aulas em nosso canal “Vai, Tavares” no Youtube.

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Jornalista, pai e corredor. Vê a corrida como uma ferramente para fazer a vida fazer sentido. Não se preocupa em ser rápido, nem com a chegada. O que importa é o caminho...

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